quarta-feira, abril 19, 2006

Gilda


eu desisti de fazê-lo entender que eu não queria fazê-lo compreender o que se passava. enquanto eu ia andando bailarinamente pela rua, ouvia os cães latirem anunciando minha passagem. foi difícil o diálogo e difícil era a lua que espiava a minha noite, um incômodo e a síndrome da árvore parada que não era mais verde e nem era outono. a multidão do dia se dissipava em cada rasa sombra e eu sentia o vazio dos corpos em chama, dos corpos cansados, dos corpos bêbados. debatia-me com as pessoas imaginárias, flâneur que não observa, mercadoria dos tempos modernos que confere o desaparecimento de um classicismo que será lembrado assustadoramente pelos que virão. eu lembrava nosso diálogo, enquanto ria do rua vazia - ajeitando o cabelo com o charme antigo de rita hayworth, pensando nele me olhando. ele sabia, ele sabia que eu não queria que comentassem o meu desejo de ser a rita hayworth.
ri sozinha. senti a leveza de um quarto vazio, um aquário cheio e as lembranças de uma discussão fingida (sempre fingimos quando discutimos), só para enganar o tédio, só para a noite passar mais rápido, ligeira escuridão. ainda andando bailarinamente, escondi a foto dela, tropecei metirosamente na calçada e adormeci como os nauseabúndicos; uma vontade de ver a gilda na sargeta...
***
tentei colocar uns links, mas minha incapacidade digital está dominando tudo. então, vai na postagem mesmo:
O primeiro link é de uma poeta argentina, a Alejandra Pizarnik, meu grande achado e talvez uma das leituras mais viscerais desses meus tempos. Descobri numa dessas jogadas de sorte no pôquer, onde havia apostado tudo. Não preciso dizer que encontro uma identificação dilacerante nas linhas dela...
O segundo link é do meu querido Cortázar. É engraçado e pode ser louco ouvir algumas narrações do próprio. Aliás, escrevi um poema ao Júlio (claro, é Júlio mesmo, o fato de dormir ao lado dele já me dá intimidade suficiente para isso) e à Carol Dunlop. Depois, depois de pensar muito, acho que será a próxima postagem.
Quanto ao desabafo anterior, só um comentário: gosto dos anônimos.

5 comentários:

pedro pan disse...

, "vontade de ver gilda na sargeta" o texto é cinematográfico do começo ao fim. personagens, cenários, ações...
|beijos meus|

eSQCer disse...

Muito bom esse texto, Jana!
E vc continua "bailarinamente" maravilhosa! Bj.

reuben disse...

saca lá: www.pandora.com

ricardo santos disse...

muito obrigado, mas muito obrigado, mas muito obrigado mesmo por indicar esse site do seu cortazar! O Jogo da Amarelinha está no meu top10 pessoal, e sempre tive dificuldade de achar seus livros. muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado

carolina disse...

poxa, eu tenho q fuçar mais uns sites legais e compartilhar com os amigos como vcs fazem. mas dá uma preguiça, a minha mente é ainda tão analógica... que puxa.
então, valew!