quarta-feira, maio 10, 2006

a dança dos dedos

excerto do diário, póstumo
alguns segredos, caro ouvinte, não se guardam em caixinhas de sapato. sim, aqueles mesmos pares que usei no fatídico dia em que subtraía a tua onipresença tomando o licor que detestava. participei da mesmice festiva com um vã entusiasmo só para reter teus olhos que nem estavam lá. caminhei na ponta dos dedos, sobressaltada com os ruídos que minha barriga fazia no imenso saloon, no instante que pensava que chegar ao consenso nunca será possível, porque meus instintos sombrios me obrigam a desejar que cesse a dor da tua presença petrificante que congelo em minhas pequeníssimas mãos que decorei com as cores hortelã dos dias claros.
esses segredos, amado, mostram-se como a fulgaz sombra distante da vela, aumentando o tamanho e tornando-a translúcida. essas magias secretas que guardam as mulheres são as páginas amareladas e ruídas que não podem constituir-se jamais. penso, sobretudo, que caminhar na ponta dos dedos exercita a fragilidade dos contos obscenos que guardamos. eis que os desejos impublicáveis nunca serão transformados em um roteiro discutido numa mesa de bar. minha indiferença, tu conheces. não ouso pronunciar a tímida referência dos meus sonhos não-cristãos.
querido, só um apelo: mulheres carregam dores e sombras. sóis nos dias nublados, como essa tarde em que colho flores e passeio com teu coração em mãos, geladas pelo frio que guardo. não queiras desvendar as necessidades que não se esgotam numa noite, cujos gemidos serão ouvidos pelos mestres tântricos do nosso livro na estante. são as maresias de instabilidade que correm nos olhos, essa tentação de voar - são os pensamentos que nunca serão escritos, pequeno, são as doses de insanidade que toda mulher esconde sob as unhas rubras.
descubra o tempo da colheita. descubra e vá. deixe-me quando souber que a satisfação consiste no segredo, o segredo que a boca não falará, essa boca que beija e esconde.

6 comentários:

carolina disse...

eita, mulheres carregam dores e sombras. é isso mesmo meus pés de bailarina...

ricardo santos disse...

e é esse o nosso problema, entender ou pelo menos vislumbrar essas sombras

croqui disse...

Pois mostrem-nos os "sóis", quando apenas vemos os "dias nublados"... Mostrem-nos as vossas necessidades... pois mesmo que nunca se esgotem partlhare-mos durante muitas noites...
Tentare-mos descobrir sempre o tempo da colheita, mas nunca se esqueçam: nós também temos os nossos segredos...

pedro pan disse...

, janaína minha querida, que texto visceral. maravilhoso.
constrói um texto com força & doçura ao mesmo tempo.
parabéns!
|beijos meus|

Ana Acadievna Karenina disse...

quero comentar o que escreveu,mas não resisto ao fato de que me deu um presente...um Blog,não vê que coloquei o mesmo formato do teu...mas o que importa é que posso gritar. O que escrevi...estava num baú,por aqui...coisas bobas...no entanto, foi bom deixar algo registrado num papel virtual amarelo...

Alexandra disse...

delícia jana. tanta coisa junta. hilda escancarando. e vc lembrando do segredo.